domingo, 15 de novembro de 2015

Sobre cartões postais e o que nos faz humanos

Na semana em que fiquei mais velha pude ter a certeza de que sou apenas mais uma pessoa nesse mundo gigantesco e maluco. Mais um ano de vida me acrescentou uma espécie de paz, de sensação de dever cumprido e aquela sensação de continuidade, a velha sensação de triunfar ao apenas ser alguém que respira sobre a face da Terra.

Infelizmente nessa semana que passou muitas pessoas perderam esse privilégio. Muitas outras perderam o privilégio de seu lar, de seu sustento, de sua esperança no futuro. Se eu vivo mas não me solidarizo, estou morta. Não tenho mais motivos para continuar sendo rotulada como humana. Sim, hoje a pauta é pesada. Em 2015 preferi deixar a celebração da vida um pouco de lado neste texto característico de aniversário e escrever sobre coisas que pesaram em meu coração.

No mesmo dia do atentado em Paris recebi um cartão postal de uma amiga que está na França. Até então eu ainda não sabia o que tinha acontecido por lá e fiquei extremamente feliz com o presente. Novamente, os pequenos gestos são os que iluminam os dias. E somente muito depois consegui me atualizar das notícias. Esse é mais um dos acontecimentos estarrecedores de uma humanidade doente que precisa urgentemente se tornar, de ato, humana de novo. Quão transfiguradas são as lentes de um fanatismo religioso que incita a morte de pessoas? Quão transfigurados são os discursos de ódio a um estereótipo específico? Quão doentes são as mentes que incitam tais atos? São perguntas que ecoam na minha mente dia e noite, sem parar. Se você pensa que está certo ao declarar "que matem todos esses muçulmanos", você apenas está se tornando um deles. Que as mortes em Paris nos lembrem o quão perigosa uma ideologia pode ser e que as autoridades possam resolver a situação com pulso firme, mas lembrando também que extremismos não levam a lugar nenhum. Digo as autoridades por que, honestamente, eu, em meus 23 anos recém completados não posso fazer muito em relação a essa situação. E se você conseguiu agir de alguma forma, fique à vontade para criticar aqueles que apenas tem a alternativa de orar pelas pessoas que perderam amigos e familiares na tragédia; caso contrário, as orações serão muito menos hipócritas do que sua crítica.

Voltando ao Brasil mas sem deixar de falar de humanidade, o desastre do rompimento das barragens em Mariana tocou minha alma praticamente na mesma intensidade que a tragédia ocorrida em Paris. Talvez eu tenha ficado ainda mais em choque por ser algo em que eu poderia ter participação no futuro, tendo em vista a profissão que escolhi. Podem ter sido muitos os motivos para que a primeira barragem se rompesse, desde fraude na fiscalização até algum erro na execução da obra. É sim imprescindível que se encontrem os responsáveis, no entanto, após esse terrível acontecimento o mais importante tem sido buscar ações para resolver os problemas gerados, envolvendo mais uma vez questões de compaixão, solidariedade e humanidade. Muitas pessoas ali perderam família, perderam seus lares e suas expectativas de futuro. A natureza sofrerá e chorará as consequências desse acontecimento. Mas o que tem me impressionado por esses dias é a quantidade de postagens sem o mínimo senso de noção, criticando qualquer tipo de ação feita para ajudar as pessoas. SIM, AJUDAR. Fico indignada com a capacidade de reclamar do que está sendo feito, do que está planejado pra ser feito e do que ainda nem foi planejado. Tudo é motivo para reclamações. Se não adianta mudar a foto do perfil nem orar por todos que foram afetados, sinto muito, cara pálida, mas reclamar disso também não vai resolver muita coisa.

Termino dizendo que não importa se quem está sofrendo mora em Paris, Mariana ou do lado da sua casa. Se você perdeu a capacidade de se comover com a dor alheia, você não é mais humano. Comover-se não é apenas orar pelo próximo que você nem mesmo conhece. Comover-se é mover-se junto com o que sofre, é buscar medidas par aliviar seu sofrimento. Eu nada posso fazer a não ser orar pelas famílias das vítimas em Paris e em Mariana, por seus motivos distintos de sofrimento, para que Aquele que está sempre no controle (até mesmo em meio ao que pareça caos) possa amenizar esse sofrimento. O que posso fazer é continuar a me envolver em questões simples, como escutar os problemas de um amigo, participar das ações movidas na faculdade para ajudar instituições que cuidam de pessoas, doar meu tempo de alguma maneira. Comover. Estar em movimento junto com outros parecidos comigo. Participar de seu sofrimento, de sua luta. Isso é o que nos faz "pequenos Cristos", não a religião. Mas acima de tudo, comover-se é o que nos faz humanos.

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