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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Juventude de plástico

Meus amigos são todos iguais: somos produto de um fordismo estranho, intrínseco da geração que veio anos após esse meio de produção.

- Eu não sei o que é intrínseco cara, do que você tá falando?! E fordismo... Engoliu um dicionário agora?

Meu orgulho maior na vida é o telefone (que faz tudo, e bem raramente, ligações) da maçãzinha que carrego no pescoço como a medalha de guerra que o vovô tem na parede. 

Eu não ligo para o que você pensa, curte minha foto?

Ler jornal? Jornal é coisa de velho, suja minhas mãos e minha roupinha que custa mais do que o seu salário. Você vive no passado, fica aí com esse celular que só faz ligações... Aprendi a ler na frente de uma tela, conversando com aquela menininha gata que eu conheci semana passada. Não sei conjugar verbos, mas de xaveco eu entendo!

"-Como você se define?" (...)

Como assim você quer conversar pessoalmente? Eu tenho whatsapp, sabia?

Mamãe sempre me dá dinheiro pra sair, mas eu não ligo pro quanto ela e o papai trabalhem pra me sustentar... sempre tive tudo o que eu quis. Nunca ouvi um não do meu pai. Ele acha que eu não faço nada de errado! Quero é sumir dessa casa o mais rápido possível, morar sozinho deve ser demais!

Ninguém olha nos meus olhos, só a câmera do meu smartphone, mas eu quero um amor pra vida inteira! Ele tem que ser lindo, rico, perfeito como o moço daquele filme... e eu não vou mudar não!
Você acha que eu vou dar o braço a torcer?
Vou procurar minha felicidade com o próximo! A fila anda!

Eu não sei o que é um joelho ralado, mas perdi todas as minhas vidas no Candy Crush... o que vou fazer agora?

MÃE ME COMPRA UM SMARTPHONE NOVO?

Ah, ele não serve pra ser meu amigo, olha a roupa que ele veste!

Pra quê ficar me matando de estudar? Estudo não dá futuro e eu não preciso saber escrever nem fazer equação do segundo grau pra ser alguém na vida. Vou reclamar o máximo que puder sobre meu emprego no Facebook e esperar que dinheiro caia diretamente do céu pra minha conta bancária.

Pô cara, não gosto de falar dessas coisas não, eu não penso em morrer tão cedo. Sou jovem e cheio de vida! Vamos mudar de assunto ae...

Foi minha avó que me criou sabe? Meus pais estavam ocupados demais trabalhando pra me comprar esse tênis e os outros cinco que estão no meu quarto...

Só consigo pensar em mim e em minha mente fechada, em minhas teimosias intelectuais, em meus achismos e em nada mais. Eu quero aparecer, ter 500 curtidas na minha foto do Insta e mais de mil seguidores no Twitter, pra acompanhar minha vida vazia, sem significado, só pra satisfazer meu ego. O meu e o de toda a juventude de plástico que anda comigo.

Dedico a todos os menores de idade, sabendo que nem toda juventude é/foi de plástico. A meu ver, assim caminha a humanidade. Temos um futuro dependente de egos inflados e corações vazios, ou melhor, cheios de vaidades.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Sobre espelhos e lentes de aumento

Eu queria começar a escrever dizendo que o modo de vida do nosso século não utiliza com exagero esses objetos do título, mas não posso. Quer dizer, não exatamente os objetos (que são bem úteis no dia a dia), mas os significados que eles trazem.

Parece mesmo que o espelho tem sido valorizado excessivamente. Por ele são descobertos egos feridos e julgamentos desnecessários. Engraçado como algumas coisas que eram muito comuns no passado tornam-se hoje motivo de escândalo e julgamento de pessoas que a usam. Coisas que estão na aparência, mas que a maioria das pessoas associa com caráter, como se o rótulo fosse influenciar no produto. Falo por mim mesma: há 40 anos era extremamente comum usar batom vermelho, ele era o queridinho das mulheres modernas. Obviamente não sei como elas se sentiam quando saíam nas ruas com os lábios vermelhos, mas se eu resolvo usar um batom vermelho hoje, algumas pessoas me olham como se eu tivesse cometido um assassinato. De verdade. É muito engraçado perceber as diferentes reações, por que alguns riem e elogiam, enquanto que outros fingem que eu não existo ou me olham de forma estranha. Essas atitudes meio que condicionam meu uso de batom vermelho e não deveria ser assim! Eu deveria ser livre pra poder usar o batom que quero quando eu quiser! Infelizmente existem dias em que minha autoestima não está tão boa das pernas e eu acabo abandonando esse hábito pra não ficar mais machucada, por que eu sei que alguém vai me olhar torto... Penso que com os homens a questão da barba também seja bem por aí...

Pra mim não interessa a cor do batom que você use ou o comprimento da sua saia: nada disso pode determinar seu caráter. Como se todas as pessoas que agem corretamente usassem apenas terno... Brasília, oi?!

Outro problema também é colocar uma gigantesca lente de aumento em algo que não passa de um grão de areia. O meu batom vermelho não vai determinar meu caráter, ele não diz que eu sou uma vadia e muito menos determina o meu jeito de agir. Meu batom vermelho reflete um gosto, um ícone, uma beleza e não o seu julgamento maldoso da minha personalidade. Como sou um ser do sexo feminino levo em consideração algumas coisas. Muitas coisas me machucam, não por que eu seja fraca, mas por que sou mulher e, antes de tudo, humana.  Mas nem por um segundo sequer o que eu visto ou deixo de vestir dá a alguém o direito de julgar meu caráter baseado na minha aparência. Essa lente estranha não apenas aumenta, mas inventa e colore uma característica que não está lá. Jesus não andava com gente limpinha e cheirosa durante a sua vida aqui. Ele andava no meio de pescadores, prostitutas, leprosos e gente que não seguia os padrões da época. Gente que não era considerada bonitinha. Poucas foram as vezes que ele tratou com importância gente que a sociedade achava importante. Ele não usava lentes de aumento para a aparência das pessoas: ele as amava pelo que eram. Quantas e quantas vezes você preferiu um cheirosinho a um mendigo? Quantas vezes você escolheu um amigo pelo que ele aparentava fisicamente? Eu posso dizer com propriedade que errei ao olhar pra uma pessoa e tentar adivinhar o caráter dela a partir da aparência. Não uma, não duas, mas muitíssimas vezes.

Voltando ao espelho, é preciso ter cuidado com quem você quer parecer. Sinto como se houvesse uma epidemia estranha que transforma em referência pessoas que são pura vaidade. Declarar o ódio a qualquer pessoa é algo batido nas redes sociais e virou padrão de comportamento. Toda essa coisa de julgar aparências também. Não acho que mulheres que exibem apenas seus corpos e que gastam todo o seu tempo, esforço e dinheiro para melhorar a aparência mas que não tenham opinião própria deveriam ser tidas como ícones. Como é que fica aquela história dos sutiãs queimados? Pra que conseguimos o direito ao voto? Não acho que homens com carros de luxo, empregos de alto escalão e muitos bens deveriam ser tomados como referência. Esses modelos são comandados pelo mais velho opressor que se tem noticia na humanidade: o dinheiro. A cultura fast food tem colocado preços (e notas!) até mesmo nas pessoas. Acho uma incrível falta de imaginação...

Eu tenho ícones diferentes... Gosto de uma figura apaixonante da internet que diz que maquiagem serve pra divertir e transformar pessoas, não pra ser uma ditadura. Que diz ainda que ninguém precisa sair por aí comprando tudo o que as lojas oferecem por que dá pra se virar e ser feliz com muito menos do que todo mundo diz e que adora fazer compras em brechós por que diz que lá se encontram as coisas mais legais. Gosto daquela atriz que admite odiar dietas e que está cansada de que as pessoas digam que ela está “cheinha” quando está normal. Gosto também da outra atriz que diz saber que já possui mais de 40 anos (e outra ainda, mais de 60) e que não precisa que as pessoas fiquem a lembrando disso. Recentemente descobri outra mulher que achei extremamente bonita em um desses filmes clássicos e que envelheceu lindamente permanecendo com o seu característico nariz de origem italiana, como o meu.  

Quero finalizar dizendo que espelhos são necessários e extremamente perigosos. Não deveríamos almejar ser como clones ou como pessoas fúteis, mas como versões de nós mesmos usando alguma inspiração de fora, por que só assim é possível ser inspiração. Já as lentes de aumento tendem a ser apenas prejudiciais, tanto quando aumentam demais uma autoestima ou quando a diminuem. Um dos meus sonhos inatingíveis seria poder andar em um mundo onde, quando eu saísse na rua usando shorts eu não fosse engolida pelos olhos alheios, que quando eu usasse batom vermelho não pensassem que eu sou uma vadia e que a maneira de me vestir não determinasse como as pessoas me tratariam. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Histórias pra contar

Eu não sou boa em contar histórias. Talvez eu jamais seja boa nisso. No entanto, hoje eu sei, no fundo da minha alma, que eu preciso contar a vocês as histórias de dois homens. Serão reais, serão criados? Será que algum deles me lê? Cabe a vocês imaginar.

A história do primeiro é um resumo de sua personalidade, a história do segundo, o resumo de uma noite.

O primeiro homem era casado e pai, bem sucedido. Tinha sua casa, sua família, sua vida estabelecida. Frequentava a igreja regularmente, possuía responsabilidades dentro dela, era exemplo ali, principalmente para os jovens. Falava com propriedade sobre as coisas de Deus, despertava sentimentos de ação no coração dos jovens que o ouviam. Queria ver e fazer as coisas acontecerem. Isso é um perigo quando a satisfação do ego é mais importante do que a ação. E esse homem desconhecia a base de tudo sobre o que falava: o amor. Achava que o amor era uma simplesmente entregar algum dinheiro para realizar as coisas, achava que sua imagem de doador financeiro era o que inspirava amor e que o prestígio que possuía ali estava muito bem, obrigado. Esse homem não sabia que, para suas palavras fizessem sentido, precisava amar as pessoas fora do ambiente congregacional. Não sabia respeitar seus empregados. Quem estava abaixo era destinado a ser pisado. Será? Era desonesto em seus negócios. Ele achava que se falasse sobre as coisas do céu seria absolvido do inferno. Achava que o amor sobre o qual falava era uma coisa seletiva, em que amaria apenas pessoas que o amassem e pessoas que poderiam servir no futuro. Pessoas que o ajudariam a manter a sua imagem. Ele não era o primeiro e infelizmente não seria o último a pensar assim.

O segundo homem não possuía nada, vivia pelas ruas, não sabia o que era ter um teto assegurado sobre sua cabeça. Bebia constantemente e não conseguia ver muito sentido nas coisas desta vida. Em uma noite, meio fora de sua consciência ainda, entrou em uma igreja. Ele não estava limpo, nem se apresentava como se tivesse um milhão de dólares, mas os homens que estavam ali o receberam, o acomodaram. Ele foi recebido dignamente, como qualquer um dos outros que estavam ali. Quando as pessoas começaram a sair, ele esperou. Não por que ainda estivesse bêbado, mas por que precisava falar com quem estava dirigindo o culto. Disse-lhe obrigado, pois não costumavam tratá-lo daquele jeito nos lugares onde entrava. Estava habituado a ser tratado de qualquer jeito e a ser impedido de entrar em templos por causa de sua aparência.

Esses dois homens não teriam nada em comum, exceto a presença em um mesmo lugar, na mesma noite, talvez. Um deles sabia teoricamente sobre o amor, o outro experimentou brevemente o amor.

É improvável que quaisquer destes homens leiam esta postagem, mas quero deixar um recado ao primeiro homem. Se você fala com tanta propriedade sobre Deus, sabe quão incalculável é o seu amor. Você deve ter experimentado uma fração desse amor. Ame as pessoas que fazem parte dos seus dias, não apenas aos frequentadores do templo. Não se comporte como um publicano. Pare de depositar seu amor no dinheiro, conta bancária não compra lugar no céu nem te faz mais santo. Resumidamente, tenha um pouco de dignidade naquilo que diz. Não estou te mandando ao tribunal, nem declarando meu ódio a você, mas há um Deus acima desse mundo, e Ele é justo. Você mesmo disse, lembra? Nunca fiz questão de parecer perfeita, Deus sabe disso. Eu erro. Demais. Não consigo amar as pessoas completamente, não consigo sair da minha bendita área de conforto, não busco a Deus como eu queria. Ele sabe que eu não sou hipócrita. Eu tenho a tendência ao exagero, mas acredito que você existe. Se você estivesse na porta da igreja e ninguém estivesse vendo, você receberia o segundo homem?

Deus sabe como eu me irrito com hipocrisia. Todos temos vários lados de uma personalidade, mas possuir duas é completamente diferente. Não entendo o porquê de querer parecer santo aos olhos da sociedade. O prestígio dos homens não interessa. Os aplausos são passageiros. Dinheiro não compra consciência tranquila, apesar do que a sociedade tenta nos ensinar. Infinitamente melhor é quem admite que erra e se arrepende do que quem diz nunca errar.

Esqueci de ligar meu filtro de eufemismo hoje novamente. Acho que estou ganhando a batalha da sinceridade, e posso me sentir muito melhor. E se eu incomodei você que me lê, estou feliz. Significa que estou saindo da zona de conforto. Que não escrevo para massagear egos feridos. Agora escrevo para deixar inquietude. Bagunça que só você pode arrumar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Metamorfoseando


Sou quem quis ser e o que eu serei.
Sou menina, sou mulher,
Dragão e borboleta, uma asa de cada
mantendo os pés firmes no chão.

Não sou fada, nem princesa,
Nunca quis um castelo nem cabelos loiros
por que iria querer o príncipe?
Talvez eu procure o sapo por que
me encanto com defeitos,
com gente que assume suas fraquezas
e ri de seus medos mais profundos.

Pluralidade,
Como um livro na sua estante,
te desafiando pra que o mistério de seu conteúdo seja decifrado.
Sou seriedade quando é necessário,
sou revolução em tempo de paz,
sou um riso fora de contexto,
uns olhos impassíveis,
contra argumento que te chama pra dançar
nesses diálogos filosóficos...

Sou forte, antes de tudo, forte,
aprendi na fraqueza que um forte precisa de um Alicerce confiável.
Minhas lágrimas vêm do cansaço, não da desistência,
Vêm sempre acompanhadas do peso dos dias,
da pressa que me colocam,
da eterna incapacidade de mudar completamente o mundo e a mente das pessoas.

Sou tantas em uma só que não consigo compreender,
busco a vida, fujo da morte,
ando depressa ainda que minha alma queira apreciar a paisagem.
Escrevo.
Simplesmente encontrei nas palavras um alívio pra tentar expressar aquilo que palavra nenhuma pode compreender.